05 de outubro de 2004 † 13 de janeiro de 2006

Espelhança

Levantou-se cedo. Não tão cedo quanto queria, mas ainda sim cedo. Ia para a escola. Não era exatamente para onde queria ir, mas não havia escolha.
Vestiu o uniforme. Cinza não é uma cor muito animadora. Talvez ficasse mais feliz se o uniforme fosse amarelo ou vermelho ou laranja.
Amarrou o cadarço do tênis. Porém, sabia que em pouco tempo ele desamarraria. Já estava acostumada com essa rotina.
Penteou-se. Cabelo temperamental. Tinha que adivinhar o que ele sentia e como ele gostaria de estar. Até porque o professor de física o bagunçaria de um modo ou de outro. (ela acha que isso é algum tipo de trauma dele por ser careca)
Colocou o relógio. Colocou o colar. E foi para o espelho ver como estava.
Chocou-se. Olhou de novo. Fechou os olhos, apertou-os e abriu-os novamente. Não era possível!Ela estava verde, com os olhos esbugalhados, verrugas vermelhas. Tinha a aparência de um extraterrestre.
Saiu da frente do espelho e desceu as escadas para tomar o café da manhã.
A mãe passou a manteiga para ela sem maiores problemas. A menina pensou melhor e resolveu ir para a escola. Ninguém a estranharia mais do que já estranha normalmente.
Foi.
Entrou na sala de aula, sentou-se na última carteira ao fundo e observou seus colegas. Depois de um ano de convivência conseguia traçar o perfil da sala inteira. Mas achava desnecessário isso. Não queria perder tempo rotulando pessoas.
Esperou ansiosamente o sinal para o intervalo. E foi a primeira a sair da sala. Virou a cara para o espelho. E continuou andando. Entrou no banheiro. Esperava que não houvesse gente lá. Seu desejo não foi realizado.
Pediu licença, a menina deu um passo para o lado, pisou em seu cadarço e ela tropeçou. Foi de cara para o espelho. Fechou os olhos em um reflexo rápido. E abriu-os aos poucos para não se chocar novamente.
Não havia com o que se chocar. Estava normal. Ou pelo menos, estava como sempre.
Voltou para casa o mais rápido que pôde e arrancou o espelho da parede. Era iminente levá-lo para o conserto.